Artigos Teóricos de Jorge Aramuni

Artigos teóricos de Jorge Aramuni para o Jornal Hoje em Dia

AS ABERTURAS

A fase inicial de uma partida de xadrez é denominada "abertura". As aberturas são conjuntos de possíveis sequências de lances iniciais normalmente utilizadas nas competições de xadrez. Não existe uma abertura definitiva, toda abertura é variável, ou seja, qualquer jogada de uma abertura pode ser mudada, a gosto do jogador. É discutível, mas pode-se dizer - e eu compartilho desta opinião - que não existem aberturas melhores que outras, existem as aberturas que estão "na moda". Por exemplo, a abertura SICILIANA é uma das mais praticadas em todo o mundo, principalmente pelos êxitos do campeão mundial Gary Kasparov, que a emprega com frequência. Quando as brancas iniciam a partida com 1. e4 e as pretas respondem com 1. c5, está caracterizada a Defesa Siciliana. A partir daí as possibilidades são infinitas, e cada enxadrista emprega as continuações que mais se adaptam ao seu estilo de jogo. Outras aberturas muito praticadas são a ESPANHOLA, quando as pretas respondem com 1. e5, a FRANCESA, quando as pretas respondem com 1. e6, e a CARO-KAN, quando as pretas respondem com 1. c6.

ABERTURA ESPANHOLA

Uma das aberturas mais praticadas em toda a história do xadrez é a espanhola, também conhecida por Ruy Lopez. Grandes campeões mundiais de todos os tempos, como Capablanca, Lasker, Alekhine, Smyslov, Petrosian, Botvinnik e Karpov sempre fizeram uso deste excelente sistema de abertura, que se caracteriza pelas seguintes jogadas iniciais: 1. e4 e5, 2. Cf3 Cc6, 3. Bb5. As brancas desenvolvem seu poderoso bispo do rei com um importante ganho de tempo ao atacar o cavalo negro de c6, que por sua vez defende o peão negro de e5. A jogada Bb5 dá início a uma prolongada pressão contra a posição negra, que devem proceder de forma cautelosa para não obter uma imediata inferioridade de posição. Entretanto não é fácil para as brancas conduzir a posição resultante. Usualmente é necessário um fino jogo de manobra das peças e peões, o que exige um apurado sentido posicional por parte do jogador das brancas. Um erro comum que as brancas costumam cometer contra a espanhola é partir de forma precipitada para o ataque, o que proporciona às negras excelentes possibilidades de lançar uma eficiente contra-ofensiva. A abertura espanhola é uma ótima escolha para aqueles que estão iniciando no xadrez, e, evidentemente, também para os experientes, pois trata-se de um sistema seguro e sólido, que oferece boas oportunidades de contra-ataque.

DEFESA SICILIANA

A mais popular abertura em toda a história do xadrez é a Siciliana. Tem este nome porque foi jogada pela primeira vez pelos enxadristas italianos. A popularidade da siciliana se explica devido ao fato de ser uma excelente abertura para criar complicações no tabuleiro, ou seja, posições complexas, ricas em variantes, e que forçam o enxadrista a realizar cálculos precisos. Praticamente todos os campeões mundiais se utilizaram da sicilana, com exceção de alguns posicionais como Karpov e Petrosian, que raramente a empregaram. Kasparov é um dos principais expoentes da siciliana, a tendo utilizado durante toda sua carreira. A abertura tem como sequência inicial os lances 1. e4 com a resposta 1... c5 por parte das pretas. O objetivo primário da jogada c5 é impedir que as brancas formem um forte centro de peões com e4 e d4. Usualmente as brancas respondem 2. Cf3 e a seguir realizam a jogada d4. Não será mais possível ao branco ocupar o centro com peões, pois após d4 as pretas realizam a troca cd4, eliminando o peão central branco, entretanto as brancas irão ocupar o centro com seu cavalo após Cd4. A siciliana é constituida de inúmeras sub-variantes, sendo que a mais utilizada no momento é a Najdorf, com as seguintes jogadas: 1. e4 c5, 2. Cf3 d6, 3. d4 cd, 4. Cd4 Cf6, 5. Cc3 a6. A jogada a6 prepara o contra-ataque básico da siciliana, que é a expansão na ala da dama.

ÍNDIA DO REI

Se você é um enxadrista que gosta de jogar no ataque, então não resta dúvida: a Índia do Rei é uma abertura obrigatória em seu repertório. A principal característica da Índia do Rei é seu potencial para desiquilibrar as situações no tabuleiro. É muito raro uma partida índia do rei terminar empatada, quase sempre ocorrem verdadeiras tempestades no tabuleiro, onde emoções não faltam. Após 1. d4 Cf6, 2. c4 g6 as negras preparam o "flanqueto", ou seja, o desenvolvimento do seu bispo do rei pela grande diagonal do tabuleiro. Em uma das principais variantes as brancas continuam com 3. Cc3 com o objetivo de apoiar a jogada e4 estabelecendo um forte centro de peões. Na índia do rei as negras permitem que as brancas efetuem o movimento e4, jogando neste momento a continuação 3... Bg7, ao contrário da Defesa Grunfeld, onde as negras iniciam um contra-ataque central com 3... d5. Jogando 4. e4 as brancas a princípio dispõe de uma vantagem teórica, o seu conjunto de peões centrais, o que é correto, entretanto as negras poderão reagir atacando pelas colunas laterais, normalmente tendo como objetivo principal o rei branco. Este é o grande detalhe e diferencial da Índia do Rei: ela dá às pretas a possibilidade de atacar fortemente o rei branco, por isto é uma abertura tão popular. Um dos maiores expoentes da Índia do Rei é o norte-americano Robert Fischer, campeão mundial na década de 70.

DEFESA GRUNFELD

Henrique da Costa Mecking, o Mequinho, foi um dos maiores enxadristas da história do xadrez brasileiro. Tinha o estilo de jogo que eu considero como ideal: era técnico e ao mesmo tempo agressivo. Mequinho tinha como uma de suas aberturas prediletas a Defesa Grunfeld, que se caracteriza pelos seguintes lances iniciais: 1. d4 Cf6, 2. c4 g6, 3. Cc3 d5. A idéia estratégica que se encerra por trás da jogada d5 é permitir às brancas a ocupação do centro do tabuleiro com uma massa de peões centrais após o câmbio 4. cd5 Cd5, 5. e4, após o qual as negras tentarão pressionar e atacar de todas as formas o centro branco. Trata-se portanto de uma abertura de alto risco, pois o domínio do centro dá às brancas excelentes perspectivas de ataque à posição e ao rei negro. Entretanto não é fácil concretizar esta vantagem, e as brancas estarão constantemente pressionadas pela situação de seus peões centrais, que são ao mesmo tempo fortes e débeis, pois necessitam da proteção de outras peças brancas. A Grunfeld é evidentemente uma defesa provocativa, um desafio às habilidades do condutor das brancas. As pretas estão dispostas a pagar o preço caso o adversário encontre as melhores continuações, que normalmente conduzem à vitória branca, mas sabem que dispõe de excelentes oportunidades de contra-ataque caso as brancas cometam o menor erro.

AO ATAQUE

Se você quer ser um vencedor, não há outra alternativa: é preciso atacar! A vitória não vem em consequência dos erros do adversário, como muitos pensam, mas sim é o resultado da melhor estratégia de ataque empregada durante a partida. A timidez e a covardia são as piores características que um enxadrista pode ter, e resulta verdadeiramente impressionante observar que a grande maioria atua de forma tímida e cautelosa, e somente alguns demonstram audácia, agressividade e coragem. Certa vez li em algum lugar que "para se viver bem não se pode ter medo de morrer". Esta filosofia se aplica inteiramente ao xadrez: para se jogar bem, não se pode ter medo da derrota! Porque isto é verdade? Porque a vitória, muitas vezes, ou na maioria das vezes, só pode ser alcançada quando se vai até a última fronteira. A vitória muitas vezes está localizada à beira da derrota, além de todas as margens de segurança. Só os audaciosos podem ir tão longe, e é verdade que poucos chegam a tanto, assim tem sido em toda a história do xadrez, e creio que continuará sendo, talvez porque realmente não exista nada mais doloroso que a derrota. Isto sem mencionar a questão das premiações e títulos em disputa nas principais competições, muitas vezes de milhões de dólares. Chega a ser um bicho de sete cabeças, porque para vencer é preciso arriscar, mas um único erro pode ter um alto preço. Não obstante, minha sugestão para vocês, caros leitores e leitoras, é uma só: melhor o risco que o conformismo. Ao ataque!

SACRIFÍCIOS DE DAMA

A mais espetacular manobra do xadrez é com toda certeza o sacrifício da dama. Depois do rei, a dama é a peça mais poderosa e valiosa, devido à sua ampla capacidade de movimentação pelo tabuleiro. Enquanto o peão só pode mover para a frente, o cavalo só pode fazer um L de três casas, o bispo só se movimenta pelas diagonais, e a torre só anda pelas verticais e horizontais, a dama pode percorrer toda a extensão do tabuleiro, indo pelas diagonais, verticais e horizontais, quantas casas quiser, para a frente ou para trás. Esta liberdade de movimentação dá a dama um poder de ataque extraordinário, muito maior que qualquer outra peça. Poderia se dizer que seria um grande absurdo trocar a dama por um cavalo, certo? Errado! Existem situações onde isto é possível, porque as peças no xadrez não tem um valor absoluto, mas sim um valor relativo. Ou seja, as peças valem não pelo que são, mas pelo que estão fazendo em um determinado momento. Em minha partida com Wellington Rocha, ex-finalista do campeonato brasileiro, tive a oportunidade de realizar um interessante sacrifício de dama, já nos lances iniciais da partida, após haver considerado diversos fatores, entre eles a melhor colocação das minhas peças e o ataque arrasador que se seguiria após o sacrifício. Foi um sacrifício intuitivo, posicional, pois não havia uma sequência forçada de lances a seguir, mas sim a certeza da obtenção de ampla compensação dinâmica. Partida Wellington Rocha (brancas) x Jorge Aramuni (pretas): 1. e4 e5 2. d4 ed4 3. Dd4 Cc6 4. De3 Be7 5. Cc3 Cf6 6. Bd2 0-0 7. 0-0-0 d5 8. ed5 Cd5 9. Df3 Be6 10. Bf4 Cc3!! as pretas sacrificam a dama em plena abertura! 11. Td8 Ca2+ dando início a um forte ataque ao rei branco 12. Rb1 Tad8 após esta captura as peças pretas estão muito melhor colocadas que as brancas, e preparadas para o ataque ao rei de Wellington 13. Bd3 Cab4 14. Ce2 Cd3 15. cd3 Cb4! este cavalo é um gigante que impede a fuga do rei branco 16. Cc1 Td5! levando a torre para colaborar no ataque 17. Te1 Bf6 mais uma peça de artilharia contra o rei branco. Observe que a dama branca assiste impotente aos acontecimentos no tabuleiro, o que demonstra a absoluta correção do sacrifício de Aramuni 18. g4 Tb5! apontando para o rei branco 19. d4 uma tentativa desesperada de aliviar a situação e ganhar algum tempo para trazer a dama branca para o jogo 19... Bd4 20. De2 após um longo inverno a dama branca dá sinal de vida, mas já é tarde! 20... a6 21. Be3 Bf6! 22. Bd2 Ca2!! 23. b3 Cc1 24. Rc1 Tb3 destruindo completamente a posição branca 25. f4 b5! 26. Dg2 não há qualquer manobra positiva para as brancas 26... Bc4! 27. Te3 Bd3! ameaçando mate 28. Td3 forçado Td3 29. g5 Bc3! 30. Bc3 Tc3+ e as pretas tem vantagem decisiva.

A PRESSÃO DO TEMPO

Todo bom enxadrista deve saber administrar o tempo que dispõe para realizar suas jogadas durante a partida, caso contrário passará por sérios apuros quando seu tempo estiver se esgotando. Tomando por base um dos principais sistemas de controle de tempo utilizado nos torneios oficiais, que é de 2 horas para 40 jogadas, ou seja, 120 minutos, concluimos que a média para realizar cada jogada é de 3 minutos. O enxadrista participante em competições deve observar esta média, como regra geral. Evidentemente existirão muitas situações durante a partida nas quais será necessário empregar um tempo maior de reflexão para encontrar uma boa jogada. Quando isto ocorre, por exemplo, quando gastamos 20 minutos pensando em uma jogada, devemos nos lembrar que será necessário realizar as jogadas seguintes mais rapidamente para voltar a estar dentro da média. Uma outra regra que também pode ser considerada como geral é não ficar muito atrás do adversário no tempo, pois isto significa uma vantagem para o oponente. Se o adversário dispõe de uma reserva de tempo maior para o final da partida, ele poderá encontrar melhores jogadas nos momentos críticos. Estas são regras de caráter geral. Sempre existem as exceções, que são aquelas posições em que é necessário pensar quase uma eternidade para calcular as inúmeras variantes e combinações. Gastar muito tempo significa assumir um risco, entretanto a capacidade para administrar os riscos é uma das qualidades fundamentais de um mestre do xadrez. Uma pequena curiosidade: o ex-campeão mundial Boris Spassky certa vez gastou uma hora e quarenta minutos para realizar uma jogada, a primeira da partida!

O VITORIOSO DE AMANHÃ

O mestre do xadrez é aquele que sabe aprender com os próprios erros e assimilar as lições da experiência. Há um ditado que diz que "a vitória pertence, não àqueles que nunca cairam, mas àqueles que se recusaram a permanecer no chão". Nenhum mestre do xadrez nasceu sabendo jogar xadrez. Todos, sem exceção, tiveram que passar por um longo processo de aprendizado durante o qual cometeram inúmeros erros e sofreram muitas derrotas. Kasparov chegou certa vez a estar perdendo um match para Karpov pelo placar de 5 a 0. Existem muitos enxadristas, inclusive de grande potencial técnico, que não podem sofrer uma derrota que se desestruturam tal como um castelo de cartas. Após perderem uma partida perdem também a confiança em si mesmos e passam a considerar que não são capazes de uma reação. Existem também enxadristas que fazem o oposto. Um bom exemplo é o grande Victor Korchnoi, atualmente na casa dos 70 anos de idade e ainda um dos mais fortes enxadristas do mundo. Korchnoi sempre soube aprender com os próprios erros. Após sofrer uma derrota, Korchnoi jogava as partidas seguintes com a fúria de mil leões, e costumava liquidar a todos seus oponentes em sequência. Analisava suas próprias partidas, identificava seus próprios erros e se esforçava para não mais cometê-los. Se você quer ser um mestre do xadrez, aprenda a levantar-se todas as vezes que cair. Recuse-se a permanecer no chão. Mantenha a sua auto-confiança. Tenha toda a certeza que, conforme a história demonstra repetidas vezes, o derrotado de hoje pode ser o vitorioso de amanhã.

FORTALECER O PONTO FORTE

A conhecida estratégia de distribuir as forças no campo de batalha nem sempre pode ser considerada a mais eficiente. Em muitas situações convém fortalecer um determinado setor do tabuleiro, por exemplo, um peão em e5, transformando este ponto em uma fortaleza. Mesmo que não existam muitos ataques inimigos sobre este ponto, pode ser interessante sobre defender o mesmo com várias peças, transformando-o em uma muralha intransponível, capaz de resistir a todos os ataques e, principalmente, dotando-o de grande potencial ofensivo. Este conceito foi formulado em primeira instância pelo grande enxadrista e teórico do passado, Aaron Nimzowitsch, autor do conhecido livro de estratégia do xadrez "Mi Sistema". Nimzowitsch defendeu o conceito como super defesa do ponto forte e o utilizou sistematicamente em quase todas suas partidas, com grande sucesso. Segundo Nimzowitsch, a super defesa de um ponto forte proporciona um domínio territorial de determinada região do tabuleiro, e o mais importante, havendo um fator multiplicativo. No exemplo mencionado, um peão fortalecido em e5 é capaz de irradiar um domínio territorial para outros setores. A superdefesa significa também uma antecipação às possíveis pretensões do oponente, o que pode deixa-lo desorientado e confuso. Um ponto superfortalecido gera também mobilidade para as demais peças e peões. Nimzowitsch entretanto enfatiza que somente pontos fortes devem ser super fortalecidos, salientando ser um grave erro o superfortalecimento de pontos débeis. Sem dúvida, uma visão do xadrez sob o ângulo mais agressivo possível, com a qual eu concordo plenamente.

QUEM ARRISCA, PETISCA

Sim, é verdade que muitos jogadores de estilo sólido e prudente, como Capablanca, Petrosian e Karpov, fizeram grande sucesso no xadrez, mas todos foram superados quando se defrontaram com enxadristas de grande qualidade técnica e superior habilidade tática. Capablanca foi derrotado pelo gênio do ataque, Alekhine; Petrosian perdeu seu título mundial para o extraordinário Boris Spassky, e Karpov foi amplamente dominado por Kasparov. O grande fator diferencial nestes encontros foi justamente a maior audácia, coragem e capacidade para assumir riscos durante a partida. A vitória, muitas vezes, só pode ser alcançada quando se vai até a beira da derrota, além de todos os limites de segurança. Este é o diferencial. Em posições nas quais Petrosian com toda a certeza ofereceria um empate ao seu oponente, muitas vezes por insegurança em tentar ir mais além em busca da vitória, Spassky por sua vez continuaria a partida. Entre Alekhine e Capablanca a diferença é gritante. Em todos os tipos de posição os dois mestres tem condutas completamente diferentes, indo sempre para lados opostos. Enquanto Capablanca buscava a vitória, mas navegando por águas tranquilas, Alekhine buscava sempre a turbulência, criando o caos no tabuleiro. Talvez por ter sido um soldado de frente durante a primeira guerra mundial, tendo inclusive sido condecorado por sua bravura no campo de batalha, Alekhine se mostrava sempre disposto a "morrer" em todas as partidas. Outros nomes podem ser citados, como o gênio Miguel Tal, um verdadeiro kamikaze do xadrez. Com toda a certeza este estilo ultra arriscado de jogar não é para qualquer um, pois exige, além da coragem, muita habilidade e sangue frio nos momentos críticos. Arriscar significa ir mais próximo da vitória, e também da derrota. Mas a prática demonstra que costuma valer a pena correr o risco. É um dado estatístico: são aqueles que arriscam mais que mais saboream o delicioso fruto da vitória. Para petiscar, tem que arriscar.

O FATOR TEMPO

No xadrez, como na vida, o fator tempo é fundamental. Na verdade é o mais importante dos fatores, que estabelece a vitória ou a derrota. Inúmeras partidas são decididas graças a um único tempo, uma única jogada feita com antecedência ou atraso. Por exemplo, uma combinação espetacular pode ser "furada" devido a um único tempo, que pode dar a chance de defesa ao oponente. Para um rei cercado em uma esquina do tabuleiro, um tempo é como uma verdadeira eternidade, que permite a escapada do monarca. Em todos os estágios de uma partida de xadrez, o tempo é também de primordial importância. Nas aberturas é essencial desenvolver todas as peças com a máxima rapidez; no meio jogo é imperativo levar a cabo os planos estratégicos e táticos rapidamente, e nos finais vence aquele que primeiro centraliza seu rei. Podemos concluir que o xadrez é também uma grande corrida em que sairá vencedor aquele que primeiro realizar um plano correto de ataque. Para compreender bem a importância do fator tempo no xadrez, recomendo que você veja algumas partidas do genial enxadrista norte-americano Paul Morphy, campeão mundial no final do século 19. Morphy foi um jogador tático, de ataques e sacrifícios espetaculares. Em suas partidas podemos observar com claridade a importância que ele dava ao fator tempo. Para Morphy, o fator tempo era muito mais importante que qualquer uma de suas peças ou peões, por isto em quase todas suas partidas vemos algum tipo de sacrifício, cujo objetivo principal era o ganho de tempo. Não foi sem motivo que a abertura predileta de Morphy fosse o espetacular Gambito Evans, que se inicia com as jogadas 1. e4 e5 2. Cf3 Cc6 3. Bc4 Bc5 4. b4!! Já na quarta jogada um magnífico sacrifício de peão visando abrir linhas para as peças brancas e atrasando as negras! Esta abertura foi também a predileta do grande Napoleão, que além de militar era também ativo enxadrista. Portanto, meu amigo e amiga enxadrista, lembre-se bem em todas suas partidas: quer vencer, quer vencer? Seja rápido!

ESTRATÉGIA DO PEÃO ISOLADO

Toda partida de xadrez tem normalmente como tema inicial a luta pelo centro. As brancas usualmente costumam sair vencedoras neste embate, fazendo uso da vantagem da primeira jogada, quando normalmente já ocupam uma casa central com um peão. As negras por sua vez tentam impedir o domínio central branco. acionando especialmente os peões laterais para atacar os peões centrais brancos, daí resultam trocas que muitas vezes conduzem à presença no tabuleiro de um peão isolado central. O peão isolado é muito comum nas aberturas de peão da dama, como Gambito da dama aceito, Defesa Nimzoíndia e a Defesa Tarrasch. Entre os teóricos do xadrez, existe um grande debate relacionado ao peão isolado. Uma força ou uma fraqueza, vantagem ou desvantagem? São grandes as controvérsias e calorosos debates ocorrem quando se tenta responder a estas perguntas. Minha opinião é que o peão isolado representa uma vantagem dinâmica, devido aos seguintes fatores: maior número de linhas, colunas e diagonais abertas para o bando que possui o peão isolado; no caso do peão em d4 proporciona casas fortíssimas para instalação de peças ofensivas em e5 e c5; vantagem de espaço; maior possibilidade de ataque ao rei inimigo, iniciativa. O lado que possui o peão isolado deve adotar a seguinte estratégia básica: evitar simplificações maciças; ameaçar o avanço do peão provocando debilidades na posição inimiga; ocupar as casas fortes dominadas pelo peão; atuar ativamente nas colunas abertas. Já o lado que luta contra o peão isolado dispõe da seguinte estratégia: bloquear o peão impedindo seu avanço; pressionar o peão forçando a passividade inimiga na defesa do mesmo; simplificar a posição ao máximo, pois o final é favorável a quem tem uma estrutura de peões compacta. A partida abaixo é exemplo de conduta para este tema: Botvinnik x Vidmar - 1. c4 e6 2. Cf3 d5 3. d4 Cf6 4. Bg5 Be7 5. Cc3 0-0 6. e3 Cbd7 7. Bd3 c5 8. 0-0 cd4 9. ed4 dc4 (surge o peão isolado em d4)10. Bc4 Cb6 11. Bb3 Bd7 12. Dd3 Cbd5 13. e5 Bc6 14. Tad1 Cb4 15. Dh3 Bd5 16. Cd5 Cbd5 17. f4 Tc8 18. ef5 Tf5 19. Tf5 Dd6 20. Cf7!! Tf7 21. Bf6 Bf6 22. Rd5 Dc6 23. Td6 De8 24. Td7 e as negras abandonaram.

OS PEÕES DOBRADOS

Saber lidar com as diversas estruturas de peões é uma das qualidades fundamentais de um mestre do xadrez. Uma estrutura típica é a caracterizada pela presença de peões dobrados no tabuleiro. Na Defesa Nimzoíndia, variante Saemisch (também conhecida por "variante das trocas") após 1. d4 Cf6 2. c4 e6 3. Cc3 Bb4 4. a3 as negras podem trocar o bispo pelo cavalo, fazendo surgir então um par de peões brancos dobrados em c3 e c4. Esta simples peculiaridade da posição já determina o plano estratégico inicial a ser seguido durante a partida. As brancas terão a oportunidade de formar um forte centro de peões, apoiado pelo peão extra que veio da coluna b, e agora serve de suporte ao centro. Além disto dispõe da inegável vantagem do par de bispos. As pretas por sua vez tem uma estrutura de peões compacta, o que sempre representa uma vantagem nos finais de partida, entretanto não tem mais um dos bispos e estão inferiorizadas no duelo central. Uma estratégia básica neste tipo de posição é a seguinte: as brancas devem o quanto antes dominar o centro com seus peões centrais e laterais; fazer um forte jogo de peças, mantendo as mesmas no tabuleiro e tentando criar ameaças à posição inimiga; especular com o avanço dos seus peões centrais no momento certo; atacar o rei inimigo; jogar nas duas alas explorando também a coluna aberta de cavalo da dama. As pretas devem preparar o avanço e5 a fim de reagir ao domínio central branco; forçar as brancas a jogar d5, o que proporciona às negras o domínio da forte casa c5; evitar o avanço de peão c5 das brancas, o que poderia desdobrar seus peões; atacar fortemente a principal debilidade branca que é justamente o peão dobrado em c4, carente de um peão que possa defende-lo; tomar o máximo cuidado com a defesa de seu rei, principal alvo das brancas. O vencedor será aquele que melhor e mais rapidamente realizar o correto plano estratégico e tático. Partida exemplo: Lilienthal x Najdorf 1.d4 Cf6 2.c4 e6 3.Cc3 Bb4 4.a3 Bxc3+ 5.bxc3 (surgem peões dobrados em c3 e c4)c5 6.e3 Cc6 7.Bd3 b6 8.Ce2 0–0 9.e4 Ce8 10.0–0 d6 11.e5 dxe5 12.dxe5 Bb7 13.Bf4 f5 14.exf6 e5 15.fxg7!! Txf4 16.Cxf4 exf4 17.Bxh7+!! Rxh7 18.Dh5+ Rxg7 19.Tad1 Df6 20.Td7+ Rf8 21.Txb7 Cd8 22.Td7 Cf7 23.Dd5 Tb8 24.Te1 f3 25.Te3 e as pretas abandonaram.

OS PEÕES COLGANTES

Dois peões situados em colunas contíguas e separados dos outros peões da mesma cor, pelo menos por uma coluna, formam o que se chama um par de peões colgantes. Os peões colgantes normalmente surgem após o combate central. São os sobreviventes heróicos da luta pelo centro do tabuleiro. Com mais frequência vemos peões colgantes nas colunas C e D, principalmente pelo lado das brancas nas aberturas do peão da dama. Aqui também temos um caso em que a vantagem ou desvantagem depende de inúmeros fatores. Para o lado que tem os peões colgantes há um fator primordial: deve ter vantagem de desenvolvimento das suas peças, especialmente na abertura. Uma vez que os peões colgantes podem, com justiça, serem considerados como peões débeis, pelo simples fato de não terem suporte de outros peões, conclui-se logicamente que é necessário uma compensação dinâmica para quem tem os ditos cujos, caso contrário a posição é de inferioridade. O que é uma compensação dinâmica? Vantagem de desenvolvimento, espaço, tempo e iniciativa são compensações dinâmicas para defeitos na posição, como uma estrutura de peões débeis como os colgantes. Daí concluimos que o lado que possui os peões colgantes deve fazer uso da seguinte estratégia básica: jogar energicamente, tomar a iniciativa a qualquer custo; evitar simplificações, pois as peças são necessárias para as ações ofensivas; atacar em ambas as alas e evidentemente ao rei inimigo; ameaçar com o avanço dos peões colgantes criando debilidades na posição inimiga; decidir se possível a partida no meio jogo. Para o lado que luta contra os peões colgantes, a estratégia básica é a seguinte: simplificar a posição trocando todas as peças, pois o final será vantajoso; atacar os peões colgantes provocando seu avanço indevido, o que cria uma debilidade na posição contrária; tentar trocar um dos peões, pois assim sobrará outro isolado débil. Partidas com peões colgantes normalmente são partidas emocionantes, repletas de combinações e situações táticas. Veja uma bela partida exemplo: Rellstab x Reinhardt 1.d4 Cf6 2.Cf3 d5 3.c4 e6 4.Cc3 Cbd7 5.e3 Be7 6.Bd3 0–0 7.0–0 c5 8.b3 b6 9.Bb2 Bb7 10.De2 dxc4 11.bxc4 Dc7 12.Ce5 Tac8 13.f4 g6 14.Tad1 cxd4 15.exd4 (surgem os peões colgantes em c4 e d4)Tfd8 16.Tde1 Bb4 17.a3 Bf8 18.Df2 a6 19.Cd1 Bg7 20.Dh4 Ce8 21.Cxf7!! Rxf7 22.Dxh7 Cf8 23.Bxg6+!! Cxg6 24.f5! exf5 25.Txf5+ Cf6 26.Txf6+! Rxf6 27.d5+ Rg5 28.h4+! Cxh4 29.Bc1+ Rf6 30.Tf1+ Re5 31.Bf4+ Rd4 32.Bxc7 Txc7 33.Dxh4+ Rc5 34.Dxd8 Bd4+ 35.Cf2 negras abandonam.

CADEIAS DE PEÕES

Dando sequência ao estudo das estruturas típícas de peões que podem ocorrer durante uma partida, veremos hoje as cadeias de peões. Se dois ou mais peões de uma mesma cor, unidos em diagonal, se colocam imediatamente à frente de igual número de peões adversários nas mesmas condições, então está formada uma cadeia de peões. Uma cadeia de peões se caracteriza pela ausência de tensão entre eles, ou seja, não é possível efetuar trocas. É formada geralmente anulando a tensão através do avanço dos peões. É de fundamental importância compreender que as cadeias de peões são compostas de dois extremos distintos: primeiramente a BASE da estrutura, ou seja, o primeiro peão da cadeia; e no extremo oposto a PONTE, ou seja, o último peão. O ponto forte de uma cadeia de peões é evidentemente a ponte, pois é um peão sustentado por todo o restante da estrutura. Já o ponto fraco é a base, o primeiro peão que carece de outro para protegê-lo. Concluimos evidentemente que o alvo a ser atacado é a base. Daí podemos formar a estratégia básica para este tipo de estrutura: atacar a BASE da cadeia de peões. Um exemplo típico de abertura onde ocorre com grande frequência a formação de cadeias de peões é a defesa Índia do Rei. As negras permitem que as brancas dominem o centro do tabuleiro e joguem d5 formando uma cadeia de peões (veja a partida exemplo no lance 7 das brancas). O plano para ambos os jogadores é atacar a base da cadeia de peões do adversário. As brancas devem se esforçar para realizar o avanço c5 atacando o peão negro d6. Uma das possibilidades que surge após realizado o avanço c5 é trocar este peão pelo peão negro d6, então a base da cadeia negra passa a ser o peão d6. Ao realizar o avanço c5 as brancas também ganham mais espaço na ala da dama e abrem linhas para penetrar na posição negra. Já as negras devem tentar enfraquecer a estrutura branca, principalmente através do avanço f5, atacando o peão branco de e4, e com a possibilidade de avançar o peão para f4 ganhando espaço e possibilidades de ataque na ala do rei. Partida exemplo Van Scheltinga x Tsvetkov  1.d4 Cf6 2.c4 g6 3.Cc3 Bg7 4.e4 d6 5.g3 0–0 6.Bg2 e5 7.d5 (surge uma cadeia de peões no centro) Cbd7 8.Cge2 a5 9.0–0 Cc5 10.f3 Ce8 11.Be3 f5 (contra-ataque negro sobre a cadeia de peões brancos e para abrir linhas na ala do rei) 12.Dc2 b6 13.a3 Cf6 14.b4 (as brancas preparam o avanço c5) axb4 15.axb4 Txa1 16.Txa1 Ca6 17.Db3 fxe4 18.Cxe4 Cxe4 19.fxe4 Bg4 20.Cc3 Dc8 21.Da4 Cb8 22.c5! (o ataque branco sobre a cadeia de peões negros chega primeiro, e será o motivo da vitória branca)dxc5 23.bxc5 Cd7 24.h3 Bf3 25.c6 Cc5 26.Bxc5 bxc5 27.Dc4 Rh8 28.Dxc5 Bxg2 29.Rxg2 Dd8 30.Ta2 Bf6 31.Tf2 Be7 32.Txf8+ Bxf8 33.Df2 Rg7 34.h4 Bb4 35.Ce2 De7 36.Cc1 Bc5 37.Df3 Bd4 38.Ce2 Bb6 39.Rh3 Ba5 40.g4 Be1 41.g5 Bb4 42.Cg3 Bd6 43.Cf1 Df7 44.Dxf7+ Rxf7 45.Ce3 Bf8 46.Cc4 Re7 47.Cxe5 Rd6 48.Cd7 Be7 49.Rg4 Bd8 50.Rf4 negras abandonam.

PEÕES ATRASADOS

Nosso estudo das estruturas de peões não seria completo se não víssemos também os peões atrasados. Em várias aberturas como a Índia do Rei, Siciliana, Espanhola, Nimzoindia, Inglesa e outras, os peões atrasados surgem com bastante frequência. Pode-se dizer que um peão está atrasado quando não pode ser defendido por seu companheiro lateral, que já foi avançado uma ou duas casas. Com toda a certeza o peão atrasado é uma debilidade, que deve ser defendida, mas ao mesmo tempo costuma proporcionar o controle de importantes casas centrais, além de poder servir de suporte ao seu companheiro lateral. Após o lance 11 das brancas na partida exemplo abaixo, as negras tem um peão atrasado em d6. Não obstante ser uma fraqueza e preocupação constante para as negras, este peão controla as importantes casas centrais e5 e c5. Também impede o avanço do peão central branco e4, que pode se tornar um alvo importante para as negras. Planos típicos para as negras nesta posição são os seguintes: tentar o avanço central liberador d5; fazer um ativo jogo de peças para compensar a debilidade do peão; organizar um ataque na ala do rei branco; pressionar o peão branco e4. Por sua vez as brancas devem pressionar fortemente na coluna aberta sobre o peão atrasado e especialmente impedir o seu avanço; atacar maciçamente o peão atrasado forçando uma defesa passiva das peças negras; uma vez obtida a passividade inimiga na defesa do peão será possível lançar um rápido ataque ao rei. A prática demonstra que esta estrutura de peões pode ser favorável ao negro se este realiza um jogo ativo e obtém compensações dinâmicas. São muitas as partidas em que as brancas se preocupam excessivamente em atacar o peão atrasado e não prestaram a devida atenção em outros setores do tabuleiro. A partida exemplo seguinte, jogada pelo forte grande mestre russo Boleslavsky, demonstram as potencialidades deste tipo de posição. Kan x Boleslavsky 1.d4 Cf6 2.c4 g6 3.Cf3 Bg7 4.g3 0–0 5.Bg2 d6 6.0–0 Cbd7 7.Dc2 e5 8.Td1 Te8 9.Cc3 c6 10.e4 exd4 11.Cxd4 De7 12.h3 Cc5! (pressionando o peão central branco) 13.f3 a5 14.g4 Cfd7! (preparando a ocupação do posto e5) 15.Tb1 Ce5 16.b3 f5!! (sacrifício de material para obtenção de compensações dinâmicas) 17.exf5 gxf5 18.gxf5 Ced3 19.Txd3 Cxd3! 20.Dxd3 De1+ 21.Bf1 Dg3+ 22.Rh1 Te1 (como consequência de seu jogo ativo, as negras penetram completamente no território inimigo)23.Be3 Dxh3+ 24.Rg1 Dg3+ 25.Rh1 Dh4+! 26.Rg2 Txe3! 27.Dxe3 Bxd4 28.De8+ Rg7 29.f6+ Bxf6 30.De4 Dg5+ brancas abandonam.

O MURO DE PEDRA

Uma boa alternativa para quem gosta de jogar no ataque e, de negras, se defronta com 1. d4 é a Defesa Holandesa, em sua variante Stonewall, que consiste na formação de uma muralha de peões no eixo f5, e6, d5 e c6. Esta estrutura é também conhecida como o "muro de pedra". As pretas obtém um rápido controle da casa central e4, onde instalarão um cavalo que servirá como a base fundamental de apoio a um ataque ao rei branco. Mas ao mesmo tempo sacrificam o controle da importante casa central e5, o que pode ser explorado pelas brancas. O controle que as negras obtém da casa é temporário, pois as brancas poderão re-controlar a casa no futuro através do avanço do peão f3. Já o controle da casa e5 é definitivo para as brancas, se estas jogam corretamente. Outro fator estratégico que se observa de imediato é a inatividade do bispo negro de casas brancas, o bispo de c8, que estará por longo tempo bloqueado pelos peões negros instalados em casas por onde corre aquele bispo. Não obstante os fatores negativos, as compensações táticas são muitas para as negras, que tem a oportunidade de lançar um perigosíssimo ataque ao rei branco, através das seguintes manobras: ocupação imediata da casa e4 com um cavalo; levar a dama ao ataque via e8-h5; expansão imediata na ala do rei através do avanço dos peões daquele setor; traslado da torre de f8 ao ataque via f6, g6 ou h6. Como se vê, as negras tem uma única opção no sistema Stonewall: o ataque! Talvez por isto tenha sido a arma predileta de campeões mundiais como Morphy, Alekhine e Botvinnik. As brancas por sua vez dispõe de ótimos planos estratégicos: controle e ocupação da casa e5; expansão na ala da dama; trocar suas peças menores pelos cavalos negros e passar a um final de jogo favorável contra o bispo negro das casas brancas. Mas a grande dificuldade branca será justamente defender o seu rei. Pegue seu tabuleiro e reproduza a seguinte partida exemplo: Flohr x Botvinnik 1.d4 e6 2.c4 f5 3.g3 Cf6 4.Bg2 Be7 5.Cc3 d5 6.Cf3 c6 7.0–0 0–0 8.b3 De8! 9.Bb2 Cbd7 10.Dd3 Dh5! 11.cxd5 exd5 12.Cd2 Ce4! 13.f3 Cxc3 14.Bxc3 f4! 15.Tfe1 Bd6 16.Cf1 Tf7 17.e3 fxg3 18.Cxg3 Dh4 19.Cf1 Cf6 20.Te2 Bd7 21.Be1 Dg5 22.Bg3 Bxg3 23.Cxg3 h5 24.f4 Dg4 25.Tf2 h4 26.Bf3? (um erro tático em posição já inferior) hxg3!! (as negras sacrificam a dama por 3 peças brancas e obtenção de posição superior)27.Bxg4 gxf2+ 28.Rg2 Cxg4 29.h3 Cf6 30.Rxf2 Ce4+ e as brancas abandonaram.

SISTEMA INDO-BENONI

A abertura Indo-Benoni é caracterizada pelos movimentos 1. d4 Cf6 2. c4 e6 3. Cc3 c5, após o qual as brancas tem a possibilidade de jogar d5 estabelecendo um posto avançado no território inimigo. Ao mesmo tempo as brancas perdem temporariamente o controle da importante casa central e5, e justamente este será o tema estratégico principal de todo o sistema: o controle da casa e5. Uma continuação inteiramente lógica para as negras é flanquetar o seu bispo de casas negras, colocando-o em g7, de onde exercerá extraordinária pressão ao longo da grande diagonal a1-h8. O roque pequeno e a abertura da coluna do rei, através do avanço e6, seguido de pressão na coluna aberta, também fazem parte do plano estratégico negro, que se complementa com a articulação do avanço dos peões da ala da dama. As brancas por sua vez, se aspiram lograr vantagem de abertura, devem o quanto antes realizar o avanço central e4 e preparar a ruptura e5 através da centralização das torres e o apoio das peças menores, muito especialmente um cavalo branco postado na casa c4, excelente base de operações para as brancas nesta abertura, uma vez que é difícil para as negras desalojar este cavalo através de b5, pois esta jogada pode ser facilmente evitada pelas brancas com o movimento a4. Um cavalo instalado em c4 é o carro chefe das brancas no sistema benoni, pois além de apoiar o avanço e5, também ataca fortemente a principal debilidade negra, que é o seu peão atrasado em d6. Este ataque leva as peças negras à passividade na defesa do peão, e muitas vezes é o principal motivo do triunfo branco. Não obstante as debilidades, o sistema Indo-Benoni caracteriza uma excelente opção de jogo ativo para as negras. Com este sistema o norte-americano Bobby Fischer derrotou o russo Spassky em 1971, conquistando o campeonato mundial.